Quem te fez nascer Portugal?!...
Quem te fez nascer Portugal
País ímpar, sem haver igual
País de um âmago profundo,
Apanágio de ser integral
Completo, pleno, total
Não há assim outro no mundo!
Raízes perdidas na história
Ou felizes, mantidas em memória
Sustentam a nobre identidade,
E fazem rumar à vitória
Alcançar a eterna glória
Abraçar a modernidade!
Quem te fez nascer tão perfeito
Teve esse refinado jeito
Te deu tamanho equilíbrio!?
Mesmo com um ou outro defeito
Até nisso tens o conceito
Do que é alcançar o idílio!
Quem te fez nascer junto ao mar
Continente e oceano, a separar
Preciosidade que em si encerra,
Países inteiros a representar
Num mapa todos a englobar
— És tu o centro da terra!
História longa e triunfante
Por momentos determinante
Em todo o mundo presente,
Quem não conhece o Infante
Por mares, todos, navegante
E em cada porto de gente?!
Dos tempos do primeiro rei
D. Afonso Henriques, eu sei
Passando por Aljubarrota,
E outras, não recordarei
Batalhas, que fizeram lei
Definindo-te sempre na Europa!
A mais antiga nação
Libertada do reino de Leão
Oh, Condado Portucalense!...
Que seria de ti não sei não
Sem independência, Restauração
Território que a ti pertence!
Padronizantes, os monumentos
Dos triunfantes descobrimentos
Alma lusa levada mais além,
E maiores não foram os intentos
Daqueles anos, quinhentos
Por terras mais não haver de ninguém!
Tomado pelos reis de Espanha
Invadido pelos da Bretanha
Defendeste a tua soberania,
Desejado por riqueza tamanha
Império, essa foi a façanha
Dos reis à democracia!
Não há país outro no mundo
Tão pequeno e tão fecundo
Disso tenho a eu certeza,
Nas palavras em que me afundo
É por elas também que difundo
A nobre Língua Portuguesa!
É esse o império afinal
Herdado do poder temporal
Esse é o que tem mais valor,
Nos define como ser cultural
Estejamos, seja qual o local
Nos une como une o amor!
Cantada pelos poetas
Servindo a Cupido de setas
Com emoção me invades,
Usada também por profetas
Emigrantes sei lá por que metas
Por ela a morrer de saudades!
Gil, Camões e Pessoa
Entre outros levando na proa
E não a usaram à míngua,
Poesia, que coisa tão boa
Atmosfera que ainda ecoa
Semeando a nossa língua!
Para toda a eternidade
A mais cantada cidade
Sim, és capital, és Lisboa!...
O fado, preciosidade
Amália, tal é a saudade
“Até que a voz me doa”!
Quem te fez nascer nesse ninho
Do Algarve até ao Minho
Em cada terra uma marca,
Seja na praça um pelourinho
Até mesmo bordados de linho
Não te esquece nenhuma comarca!
Terras onde Portugal se sente
Nas brumas e na corrente
E hasteiam a tua bandeira,
No limite do velho continente
O sol nasce no mar reluzente
Nos Açores e na Madeira!
África quente, África minha
Que o progresso para onde caminha
Tão merecido que é afinal,
Não apague o que de bom tinha
Libertação traga a nova linha
Mas não esqueça que foi Portugal!
Cabo Verde, Moçambique, Angola
Vestimos a mesma camisola
Guiné, S. Tomé, e Timor,
Com Macau e Goa joguemos à bola
Como o Brasil, que tem a cartola
Todos juntos faremos furor!
E em todo o mundo onde houver gente
Um português estará sempre presente
Que coisa mais fenomenal!
Seja natural ou seja descendente
O importante é se ele sente
Que também faz nascer Portugal!
Quem te fez nascer na Ibéria
Deixando imensa matéria
Envolta em muitos pergaminhos,
Imunes a qualquer bactéria
Porque só numa relação séria
Convivem irmãos e vizinhos!
Rio Minho, suave, desliza
Unindo o norte à Galiza
Local onde o verbo nasceu,
E nas praias com a sua brisa
Ao pôr-do-sol o pensar paralisa
— Emoção que sobre mim abateu!
Do Porto, o vinho, eterno sabor
Pelo mundo, grande embaixador
Mágicas encostas do Alto-Douro!
Rupestres, figuras, de mundial valor
Aldeias históricas pelo interior
Compõem o verdadeiro tesouro!
Abeirada a sabedoria
Pelas entranhas da academia
“Coimbra, tens mais encanto…”
E da serra, como a neve fria
Descer do céu à Cova da Iria
Orar em Fátima, no altar santo!
Pastores, toureiros, campinos
Conventos, mosteiros, casinos
Oliveiras, searas e laranjais,
Ananases, queijos e bailarinos
Golfe, tantos são os destinos
Portugal, que ofereces mais!?
Terra de gentes hospitaleiras
Tradições, festas, e feiras
Ciência e cultura também,
Gastronomia, qualidades primeiras
Monumentos com fachadas inteiras
De pormenores que a vista retém!
Em Miranda tens o mirandês
Folclore em qualquer português
Ritmos diferentes sem fim,
Em festivais, de natureza talvez
Que dizer das serras do Gerês!?...
— Portugal, natural jardim!...
De cortiça, produtor principal,
Cidades património mundial
Évora, Porto, Guimarães, Angra...
— Tradições sem consenso total
Como a corrida monumental
Com o toiro na arena que sangra!
Arenas de outras lides finais
Vencedores dos jogos mundiais
Eusébio, quem não conhece o menino?!
Jogar até não poder mais
Marcar anulando mil ais…
— Este é um país latino!
Bandeiras sobre as janelas
Bailando ao vento, quais velas
Símbolo da unida nação,
Como no tempo das caravelas
Que poder tu aqui revelas
Promovido pela selecção!
Poder que ultrapassa fronteiras
Como trajes de lavradeiras
Com este e aquele artefacto,
Galos coloridos nas feiras
Teares, concertinas, cantadeiras
Acompanham o artesanato!
De Arraiolos são os tapetes
Loiças e cristais para os banquetes
Sobre os bordados regionais,
Lendas recordadas entre joguetes
Pelos ladrilhos dos palacetes
Que de celeste, azul, preenchem murais!
Preenchem também quadros com santos
Em simples paredes caiadas de brancos
Nascidas em canteiros repletos de flor,
Que belos que são os encantos
De Portugal, em todos os recantos
Seguem, rebanhos, a voz do pastor!
Pastor que ambiciona na vida mais
Partindo para longe, buscando ideais
Terras da América, Alemanha, França…
Viagens de trabalho, de turismo, normais
Sabem aqueles que têm mais
Que em Portugal a fortuna se alcança!
Litoral, praias de ondas ao vento
Interior, terras paradas no tempo
Ilhas, paisagens que encantam deuses,
Entre cidades, pólos, de desenvolvimento
Tradições marcadas de sentimento
Algarve, mais outros que portugueses!
Quem te fez nascer com talento
Que em tudo encontra alimento
Terra fértil, de ideias também,
Não há por nenhum momento
Um vazio de encantamento
Tal a riqueza de vida que tem!
Bacalhau regado sobre a mesa
Sardinha, na brasa, com certeza
Refrescada com o alvarinho,
A grande posta à mirandesa
Ou lagosta, em casa portuguesa
Há sempre pão e alentejano, o vinho!
E para alimentar a alma
Procissões de silêncio e calma
Ruas de Braga na semana santa,
Igrejas adornadas com folhas de palma
Romarias, caminhadas, que o espírito acalma
Senhora da Agonia, ou dos Remédios, encanta!
Com foguetes de todas as cores
A estoirar acompanhando os sabores
Dos santos populares, quanta alegria!
Quem vai acompanhar os andores
Ou colocar sobre a rua as flores
Que de papel são a maior fantasia!?...
Mas há também outros cartazes
Para aqueles, os mais audazes
Há sempre um espectáculo em cena:
Musicais, ópera, revistas mordazes
Esculturas e telas perspicazes
Monumentos, Palácio da Pena!
Mais que teatros, museus e solares
Mais que navegues seja por que mares
Onde se encontra a tua essência,
É na livre expressão dos pensares
Mais que a calçada por onde pisares
É nela que está a sapiência!
Liberdade, fundamental
Direito, para todos igual
Os valores da democracia,
Povo com papel principal
Governando-te, meu Portugal
Justiça é lei, sua garantia!
Respeitar os valores humanos
Mais profundos que os oceanos
Portugal, é a tua missão,
Sobrepor-te a bens mundanos
Honrar os povos lusitanos
Ser exemplo, a seguir, a lição!
Igualdade entre homens e mulheres
Entre os povos, aquilo que queres
Pelo ambiente, as crianças, a vida…
Fazendo tudo o que puderes
Pelo progresso de todos operes
Esta luta há-de ser vencida!
Com informação, cultura, e arte
Trabalho livre, em toda a parte
E responsabilizar, com meios eficazes!
Que a sabedoria seja o teu baluarte
E que este lema ajude a guiar-te:
— Pensa no que sabes e serás o que fazes!
Quem te fez nascer Portugal
Expandido no mundo universal
Com talentos Nobel premiados,
Quem é que foi afinal
Que teve a ideia genial
De nos fazer tão brindados!?...
Quem fez nascer o teu escudo
E por ele te marcou em tudo
Colocando as cinco quinas?!...
Guardado em estojos de veludo
É de Portugal, nisso não me iludo
Sejam rochas, moedas, ou rimas!
A esfera armilar, os castelos
De Portugal, símbolos belos
Presentes em todos os territórios,
Antigos, e mesmo singelos
— Sim, são esses os elos
Do passado ao futuro, obrigatórios!
Que se eleve a civilizada bandeira
De verde, esperança primeira
Que se eleve com o encarnado,
Pela paz, justiça verdadeira
Pela vida, na terra inteira
Que se eleve sempre e em todo o lado!
Quem te fez nascer Portugal
Sabia aquilo que fez:
— Que o Homem só é imortal
Obrando com altivez!...
— E isso seria o sinal
Que guiaria qualquer Português!...
Poema de Sá Lopes
(Barcelos, 2006)